Legado de 25 anos deixa marcas profundas na universidade e na vida de centenas de estudantes
Fortaleza – Após 25 anos dedicados à Universidade Estadual do Ceará (UECE), a professora Marisa Ferreira Aderaldo encerra sua trajetória deixando um legado que vai muito além das salas de aula. Sua história é a de uma mulher que reinventou sua vida profissional e, sem planejamento prévio, tornou-se uma das figuras mais importantes na construção de uma universidade mais inclusiva e acessível.
Natural de São Paulo e formada pela Universidade de São Paulo (USP), Marisa chegou ao Ceará em 1996 sem imaginar que a docência universitária seria seu destino. Após duas décadas trabalhando no Banco do Brasil, ela decidiu recomeçar do zero. “Ser professora de universidade nunca esteve nos meus planos”, relembra com a segurança de quem fez a melhor escolha de sua vida.
Da Sala de Aula à Gestão Universitária
Iniciando como professora de português, Marisa logo migrou para a língua espanhola, sua verdadeira paixão. Em 2003, após ser aprovada em concurso público, consolidou sua posição no curso de Letras do Centro de Humanidades. Mas a sala de aula, embora sempre seu lugar de pertencimento, não foi seu único espaço de atuação. Ao longo dos anos, ela transitou por diferentes setores da universidade, atuando como coordenadora do Núcleo de Línguas, no Laboratório de Tradução Audiovisual (LATAV) e na pós-graduação.
“Meu coração ainda pertence à sala de aula”, afirma Marisa, guardando em seu coração os reencontros com ex-alunos que se tornaram professores, pesquisadores e doutores. Uma de suas recordações mais tocantes é a de uma ex-aluna que, duas décadas depois, lembrava-se de um texto sobre o discurso de García Márquez ao receber o Nobel. “Isso não tem preço. Faria tudo de novo. Com erros e com acertos”, diz emocionada.
O Divisor de Águas: A Inclusão
O ponto de inflexão em sua trajetória chegou em 2021, quando foi convidada a ser assessora do Núcleo de Apoio à Acessibilidade e Inclusão das Pessoas com Deficiência (Naai/UECE). Sem experiência prévia na área, mas munida de sensibilidade e compromisso, Marisa mergulhou no desafio de transformar a inclusão em uma questão sistêmica na universidade.
“A gente construiu, de fato, a base da inclusão e da acessibilidade na UECE. Nós conseguimos transformar a inclusão numa questão sistêmica”, afirma com a consciência de quem ajudou a estruturar políticas e práticas que hoje impactam toda a instituição.
As mudanças foram concretas e significativas. Servidores da biblioteca aprenderam a receber estudantes com deficiência adequadamente. O Restaurante Universitário adaptou suas marmitas para alunos com seletividade alimentar. O sistema acadêmico ganhou uma coluna específica para informações de acessibilidade. “Todo mundo tem que entender que tem um pouco da responsabilidade”, enfatiza Marisa, defendendo uma abordagem coletiva para a inclusão.
Histórias que Emocionam
Os momentos mais marcantes de sua trajetória no Naai são as colações de grau de estudantes com deficiência. “É a atividade-fim da universidade se realizando. É emocionante ver essas histórias sendo concluídas e ver a alegria das famílias”, relata com os olhos brilhando.
Marisa guarda com carinho a memória de Anderson, aluno surdo do curso de Educação Física, dançando quadrilha sem errar um passo, com o suporte dos intérpretes do Naai. Recorda também de Elanine, que perdeu a visão aos 15 anos e hoje realiza estágio supervisionado numa escola, acompanhada por um auxiliar que descreve os movimentos das crianças em tempo real.
Uma das histórias que mais a tocou foi a de um estudante que tentou o TCC quatro vezes antes de finalmente ser orientado com as adaptações certas. Após sua aprovação, ele enviou uma carta de agradecimento ao núcleo. “Como não ficar emocionada? Você recebe uma cartinha de agradecimento e percebe que valeu cada domingo trabalhado!”, indaga a professora aposentada.
Uma Universidade de Acolhida
Para Marisa, cada conquista carrega o esforço coletivo de uma rede que envolve professores, técnicos, gestores e famílias, reafirmando o papel social da universidade pública. Ela fala com profunda gratidão sobre sua experiência na UECE.
“Eu tenho uma gratidão ‘tão’ grande porque ser professora universitária nunca esteve nos meus planos. Foi sem planejamento e foi a melhor coisa que me aconteceu!”, declara. E complementa: “a UECE foi um espaço de acolhida. Eu fui acolhida, e depois acolhi.”
Essa filosofia de acolhimento é, segundo ela, o que sustenta a vida universitária. “A gente tem que estar sempre disposto a abraçar as pessoas. É muito bom ser abraçado, mas também é muito bom abraçar.”
Um Novo Tempo
Agora, vivendo um novo tempo, Marisa se permite desacelerar. Dedica mais atenção à família, planeja viajar e cuidar da saúde. Eventualmente, pretende continuar contribuindo com aquilo que ama, como a audiodescrição, área em que foi uma das pioneiras na pesquisa acadêmica. “Se eu voltar a trabalhar, vai ser de forma mais tranquila, no meu tempo, do meu jeito”, afirma com tranquilidade.
Mas há algo que permanece inabalável: seu vínculo com a UECE. “Eu saio da UECE, mas a UECE não sai de mim”, diz com certeza. As resoluções que ajudou a escrever continuam vigentes. O Naai segue de pé, com uma equipe altamente qualificada. E por cada campus, há estudantes com deficiência que chegam, permanecem e se formam, em parte porque alguém, lá em 2021, resolveu recomeçar do zero.
À professora Marisa Aderaldo, a Universidade Estadual do Ceará agradece o compromisso inabalável com a inclusão e o legado transformador deixado para as gerações futuras.
Fonte: UECE

